A DOCE SOLIDÃO DE JAÓ

A solidão me convida. Às vezes sim. Aceito me isolar de todos e até de mim mesmo sob a luz tênue de uma caverna. Depois, ajustando as pupilas ao sol, sei o que já sabia antes, não é isso o que quero, nem eu nem ninguém. Contudo, acontece o cansaço de si mesmo. A despeito disso, amiúdam-se saraus, meninos puros e energéticos pirraçam com essa mania de ficarem juntos e macaquearem. Catam-se piolhos do pensamento, envenenam-se ratos da conversa, cai um fio de água fervente no asco das baratas da sociedade.

Era 11 de outubro de 2017. Isso foi no Centro de Cultura José Maria Barra (Sesiminas). Servia-se cerveja ao lado de uma árvore sangrando. Sobre isto, Jaó lamentava a doçura da cana… pois, sim. Havia lá um moinho ao lado de tudo, no meio de todos eles, no centro da mostra, quando Tutu apareceu arrastando um corpo suado pelo piso do salão nobre e lambuzou-se de garapa, lambendo o chão… alguém viu e correu ao atabaque.

Havia um ar de se perder onde se acham Liras… reuniram-se não poucas gentes aos clamantes das Liras dos anjos desempregados pela doçura corrosiva… Liras. Liras dos contos enterrados de gentes esquecidas… mesmas dos igarapés sedentos de saudade das urinas de animais e gentes. Estes seres rios que alegravam a vida, foram-se muitos, chorar as águas aos ombros da escuridão.

A solidão me convida. Às vezes sim. Aceito me separar de mim mesmo ao me reunir com os que cantam campos ermados pelo mel incendiário da cana de açúcar. Ali corro e não canso. Depois que durmo, sei, porque me acorda o barulho da máquina a colher sorrateira e sarcasticamente. Isto que sei, já sabia antes, não é o que quero, nem eu nem ninguém. São Liras… nem eu nem ninguém.

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