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A ÁRVORE QUE ERA UM HOMEM

Esta é a história de um homem que era árvore. Alguém me disse, não sei, talvez tenha imaginado. Uma roda de gente sempre ajuntava em dias de feira, Verduro, roupas pobres e simples, assentado na calçada, costumava falar sobre que gente é como árvore e as palavras das pessoas são as frutas.

Sempre havia muitas crianças, porque essas coisas que dizia, eram bem do jeito que crianças pensam, cheias de poesia e imaginação. E ele se divertia contando casos que inventava. Um dos ouvintes quis saber melhor essa história de gente ser árvore, é uma ideia estranha, disse o homem a Verduro. Ele riu, gostava de atiçar a curiosidade.

Somente gentes podem dizer palavras e gentes foram feitas de terra, para frutificarem nela, por isso são como árvores. E, de fato, as palavras têm cor, sabor e teor alimentício, como as frutas, insistiu Verduro. No princípio, antes de existir tudo, era o nada, foram frases de palavras fortes e cheias de sentido que fizeram sair da terra todas as coisas. Isso aconteceu quando se criou o tempo e, entre as fases das frases, veio a primavera do pensamento!

Frutas, quando amadurecem, alimentam gentes, bichos e pássaros. As palavras, quando amadurecem, se tornam ideias que outras gentes comem. Quando ninguém come as frutas, elas retornam pra dentro das árvores, pelo chão, onde apodrecem. Palavras também, se ninguém as ouve e entente, voltam como alimento a quem as disse. E tudo começa outra vez, isso é como as noites e dias.

Sim, gentes são árvores. E podem ser muito inteligentes, se moram diferente, se souberem se plantar na terra. Quando a gente vive plantado na terra, a força das águas de dentro, os lençóis de água dos fundões, sobem e fortalecem nossas raízes. Quem não desenvolve suas raízes, não conseguirá, de fato, frutificar.

A meninada gostava de ficar em volta de Verduro, chamavam-no de Árvore. Parecia-lhes assim, aquele homem de pele escura e cabelos grandes, enrolados. E Verduro era cheio de palavras! Elas nasciam tão fortes na cabeça dele! Parece que pensava demais… e ele se divertia com as perguntas engraçadas dos infantes e respondia com outras palavras e contos. E um fato muito interessante é que meninos que falavam com Verduro aprendiam logo a ler e escrever e inventar contos legais.

Mas Verduro ficou muito velho e morreu. E quando morreu, o cabelo dele disparou a crescer, ficou muito grande, como se todas as histórias que inventou saíssem pela terra. Isso se tornou um problema na hora de enterrar o homem, não se sabia como fazer isso. Até que um menino teve uma ideia

— Se ele é árvore, vamos plantar ele…

e foi o que fizeram. Cavaram um buraco no chão da praça e plantaram o corpo do homem. O cabelo continuou crescendo e virou mesmo uma árvore maior que as mangueiras e pessoas passeando ali comentavam a história de Verduro.

Passado um tempo, alguém notou que saíram flores e, depois, vieram frutas. Foram todos ver isso de perto, frutas com formas de letras que significavam coisas. As frutas eram muito agradáveis e cheiravam a poesia. E quando um menino arrancou uma e comeu, no mesma hora, ele saiu falando coisas interessantes e inventando histórias. Todo mundo ficou muito impressionado com isso e mães começaram a dar aquelas frutas aos seus bebês, que começavam logo a falar e até a cantar.

A cidade se enriqueceu com isso, porque vinha gente de todo lado, inclusive pessoas que eram mudas, pra comer das frutas da árvore. E todos que as comiam, começavam logo a falar. E quem pouco pensava, começava a compreender coisas das suas vidas. Foi, então, que fizeram uma festa, um sarau de histórias, músicas, desenhos e poesias. Todas as crianças da cidade inventaram muitas coisas pra ilustrar o que contavam.

Pessoas de toda parte vinham pra assistir ao evento e levaram muitas frutas daquela árvore pra suas cidades. Mas, um detalhe: as frutas não tinham semente, não se podia plantar. E, dado que tantos queriam exatamente isso, reuniram-se pra discutir essa questão. Como plantar aquilo? Como levar pra outras cidades que queriam ter árvores como aquela?

Depois de muita conversa e pesquisa, descobriram a razão. O que acontece é que todas as pessoas são, na verdade, árvores de palavras, mas não sabem disso! Não se pode obrigar gente a ficar criativa e viver como árvore. Isto só acontece pela vontade delas mesmas, do mesmo modo que a natureza veio a existir pela vontade de quem a criou.

Diante disso, reuniram os moradores e começaram a ensinar isso: temos que pegar em lápis pra desenhar e escrever, abrir a voz pra cantar, pensar e imaginar, até que frutifiquem em nós os inventos e as cores que nos tornem como as árvores, do mesmo jeito que Verduro foi. E então, na mesma hora que entenderam isso, a árvore parou de frutificar, porque já não precisavam daquilo também. O assunto de todas as pessoas daquela cidade, falando uns aos outros o quanto era preciso que fossem imaginativos e sonhadoras.

De forma que, ainda hoje em dia, naquela cidade, pessoas sempre chegam de todo canto a procurar pelas frutas de Verduro e não as encontram. Mas os moradores ensinam que não precisam das frutas, porque pensar de certo modo na vida, faz com que as pessoas se tornarem árvores de palavras, e que isso foi o que Verduro fez, desde a infância.

 

 

 

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