CERRADO ARTE CABOCLA

Cerrado é gente boa e caramelada. É tudo gente brasileira. É branco casou com preto. É índio casou também. Aí ficou bonito,  feito esse jeito da gente.

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Gente boa e caramelada

 

CERRADO É GENTE CABOCLA


O caboclo da vila, Menino, era muito gente, mas sabia muita coisa. Lembrou da escola, mas disseram que só podia quem aprendia a crescer, lucrar e vencer. Ele não entendia… Porque só sabia contar história de sonho, essas coisas. Aí Feudal chegou, e levou gente pra vender. Menino não era caro, não sabia crescer, lucrar e vencer… Vila comprou Menino com dinheiro nada e muito valor, e ele aprendeu a cantar.

De tanto contar as coisas, ele agora canta no cerrado. Canta as cores do mato e coisa de não acabar. Fala de água, de planta e de córrego Geraldo, contra Usina e Pêvú, os dois inimigos do cerrado. E com seu canto, Menino cresce os sonhos, lucra a felicidade e vence a confusão. A quem ouve ele conta a história. A quem gosta ele canta cerrado. Samarôto, o louro azul do Colt 64, tenta enganar Menino, mas ele diz que vila que habitar é tudo que precisa aprender.

Não quer mais nada, e por isso canta. Samarôto que fique longe, pensou, com seu free-world de araque; que gente que quer ser gente, não fica na casa dos outros, fazendo o que ele faz. Menino não quer crescer pra nada, que o mato lhe deu seu cheiro e o córrego lhe deu banho. Passarinhos lhe deram música e terra lhe deu força. Arte nasceu da pele e fez de tudo bastança.

CERRADO NÃO É DE FERRO


É que gente não é de ferro, muito menos o cerrado, mas uma máquina, que tem carne de ferro, tá fazendo o choro dos bichos e das árvores. Lá tem canto, tem cor, tem água, mas também tem bicho sapecado, fugindo do fogaréu, e só teria outro jeito, se fosse de ferro também… Agora, se ferro come verde, se acabar o verde, a máquina de carne de ferro vai comer carne de gente.

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O tronco é história de bicho e de árvore queimada

A ÁRVORE DE FERRO

É meio doido, mas o velho fez uma árvore de ferro e plantou na vila. O tronco dela é esquisito, é história de bicho e de árvore queimada. E de nascente e de igarapé do Geraldo, e de tudo que Usina mandou Pêvú acabar. A figura sai da máquina que cospe fogo, e o cabra sai gritando que o cerrado tá acabando.

Essa história é desses dois: Usina, uma cascavel de saia de ferro e Pêvú, o bebedor das nascentes. Eles parecem gente, mas são de ferro e de plástico. Eles têm espírito de máquina e não gostam de mato. Nem de passarinho. Nem de bicho do mato. Nem de comer fruta. Não têm felicidade. Usina e Pêvú só têm dinheiro, e vivem pra isso e por isso.

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Usina e Pêvú perseguem os bichos do cerrado

Usina come qualquer bicho ou árvore. Ela cava um buracão e enterra várias árvores, da noite pro dia. Pêvú bebe qualquer igarapé ou rio. Mas quem gosta de mato e mora nele precisa dessas coisas, e cuida delas. Usina e Pêvú não gostam de mato, só gostam de montanha. Fazem montanha de milho, e de soja, e de cana. Depois trocam por montanha de dinheiro e fazem montanha de problema.

Usina e Pêvú são gente de carne de máquina. Ela é comedora de capoeira, e ele é bebedor de nascente: ele bebe a água do igarapé e mija na terra de Usina. Mas montanha de dinheiro não compra árvore nem nascente. Só se for de ferro. Esses dois tão nem ai pra bicho, não tá pra gente também. Nem precisa de gente pra trabalhar mais…

Trabalho no cerrado não é mais de carne, é de ferro. E passarinho que vá pra gaiola, e macaco que vá pra escola, aprender um cerrado triste. Todo mundo tá indo embora da roça, e lá tá virando a casa de Usina e Pêvú. Não tem mais arrasta-pé nem viola. E essas gentes do cerrado não nasceram na cidade, mas têm que ir pra lá, não sabem as coisas de cidade. Então, não arrumam trabalho, e os velhos morrem de tristeza, mas quem vai viver sem córrego?

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Então, o velho fez uma árvore de ferro

POR QUEM CHORA O CERRADO?


Essa é a história: o velho fez uma árvore. De ferro, que nem a saia de Usina. Não dá fruta nem nada, dá tristeza de cerrado. É pra ver se alguém se atina, que dinheiro não compra bicho nem árvore. Que mato precisa de gente, e que gente precisa de bicho. Que mato de gente tá acabando, e nem calango quer ficar. Que era lugar de fruta, e a bicharada é que gostava! Era terra de plantar junto com os bichos, terra de morar mutum, Tamanduá, tatu, mão-pelada… Passarinho dava de bando, e tinha mel de jataí. Caboclo soltava gado, e vaca gostava de lobeira. Menino lambuzava de ouvir passarinho cantar.

Usina não liga pra isso, nem Pêvú se incomoda, mas gente que mora no mato, é quem sabe que essas coisas sempre criam problemas. Mas essa gente que tem carne de máquina não liga pra ninguém. Só pensa em dinheiro de Usina, a cascavel da cidade. O veneno dela é muito pior que cascavel do cerrado. A árvore do velho pensa nisso. Tem que falar com Menino pra não aprender esse jeito, porque essa carne de máquina, até gente é capaz de matar. As árvores são nossas, e a gente tem que levantar a bandeira, porque quem gosta do cerrado não pode ficar calado.


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