FACEBOOK, O PARAÍSO SINTÉTICO

Em tempo de aparecer a qualquer custo, Falsírio e Sacarina conseguiram superar as desavenças com um mergulho radical nas redes sociais. Neste ano, arrastaram o disputado cinturão dourado Casal Felicidade Facebook, apresentados como exemplo de superação aos casais desgastados em arranca-rabos românticos.

Eles são protagonistas de um canal de vídeos explicativos para otimização de performances em redes sociais. Pediram que publicasse o tutorial abaixo. Por mais bizarro que pareça, tudo me pareceu bem aplicável à realidade de redes sociais.

FACEBOOK,
UMA ATUALIZAÇÃO ORDINÁRIA

Tópicos:

  • A glória em síntese
  • Nem só de peitos
  • Botox na cabeça

O sofrimento pela beleza é histórico e muito bem familiar em nossa cultura, diga-o quem se depila. Produzir-se no Facebook passa perto, não tão rápido, mas vale tudo pra ter as próprias pegadas nessa calçada. Comece pensando num paradoxal aforismo: o ridículo é um ingrediente para a glória. Avante!

Desprezem a realidade. Esse é um comando básico. Toda a estrutura de cliques, adesões e elogios é como um algodão doce, quando toca derrete, mela os dedos. Produzir-se, basicamente, é criar uma imagem melhor possível de si mesmo, exatamente como funciona no mercado. Portanto, invistam no virtualismo. Desde os 25, já devem ser incluídas doses de botox contra quaisquer sinais de realismo. Rugas e linhas de expressão denunciam imperfeições, devemos escondê-las!

Cuidados com as postagens. Com pequenos retoques, podemos superar o pavor do ostracismo que persegue as rosáceas baratas dos shopping-centers, movidas a fluoxetina. O Facebook, um portal da fantasia e purgatório de aflições, é uma floresta sintética, em que árvores de plástico frutificam alegria em cápsulas. Aí se deve emoldurar a ideia de que tudo é fabricável. Tudo começa assim: quem sorri é feliz!

Ampliem os horizontes. Há poder no virtualismo! Diria Angelinda. De fato, nem só de peitos vive a artificialidade. Marta confessa sua adoração pela imagem de Angelinda: linda, rica, magra e ateia! Ela escreve nos comentários e injeta dezenas de carinhas felizes. Aí estão protagonizadas duas grandes ideias piruais: beiços e peitos. Que máximo! Nada como o poder de nos recriar, sintéticos e lustrosos…

CÂNON DA INTERAÇÃO

Brilhar é preciso.
Viajar é preciso.
Viver não é preciso.

Atendam aos padrões. Uma vez ingressados na artificialidade, abusem da sessão Fotos/Com/Você, o sucesso se mede pela quantidade de amigos. Incluam nomes no portfólio de relacionamentos, tirem fotos com gente (selfies) da mídia. Os micos são compensados pela conquista de certos momentos que vão pra sua Linha do Tempo.

Ostentem prazer. Nada atrai mais a inveja do que viagens. Sim, porque isto é uma regra básica da felicidade virtual: humanos que não viajam não são felizes. Viajem, pelo menos, uma vez ao ano e, mesmo que seja um fiasco, tire fotos. Corpos sarados, queimando na praia, como picanhas assadas ao sol, melecadas de suor, areia e sal têm muito poder de babação. Os entendidos sabem que isso super soa bem.

CHARME DO SUCESSO PESSOAL

Quem quer dentes amarelos?
Cultura do aniversário
Ostentando a linguiça
Ensaio do sorriso
Marido no quintal
Meu carro, minha vida
Cachorro sim, galinha não

Dentes em cor natural são obsoletos e ultrapassados. Em tempos remotos, dentes falhados ou levemente tortos, era até charme, mas agora, não se iluda! Isso é uma doença, é um crime contra os seus próprios direitos humanos. E já que estamos no país dos desdentados, feliz de quem tem dentes brancos pra mostrar. Dentes brancos, no Facebook, é uma regra, enfileirados e branquinhos, como um exército de dentistas.

Prazeres da carne. Linguiças na churrasqueira é uma bandeira de quem tem vida normal. Quem não invejaria um axé claudileitista curtido por um grupo de universitários, especialmente os que estudam medicina? A babaquice do avental e a maleta de ferramentas, o estetoscópio pendurado no pescoço, como os sinos em jumentos fogosos, desfilam a glória da casta que representam… um charme! Não podem faltar o papo sobre futebol e o funk proibidão entre latinhas de cerveja e beijos de gordura. Ostentam felicidade!

Criem um portfólio físico com as festas. Festas existem para fazer com as pessoas pensem que se gostam. Casamentos e aniversários, por exemplo, mesmo que se detestem, são importantes. O marido mostre que tem um carro e a mulher mostre que tem marido no quintal ($). Bobo é quem pensa que carros são simples meios de transporte, na verdade, eles são bandeiras do sucesso! Mas, atenção: ensaiem uma expressão casual, tipo Ah, não é grande coisa…

Aprendam a ostentar. Escolham um destaque discreto para as suas posses no cenário. O ideal é que se tenha variedade, mesmo que não se use, tipo Carro/Moto/Barco/Jet-ski. E não desprezem o charme de uma bicicleta pendurada. Mesmo que ninguém se arrisque em andar com isso. Dá um toque naturalista. Mas, em termos do que vcs possuem, tudo conta, eletrônicos, equipamentos da cozinha, sapatos, vestidos, animais, pessoas (empregados).

O mais eficaz é ter piscina. É ótimo pra tirar fotos curtíveis e se deliciar com a inveja dos internautas. Ela os forçará a que digitem qualquer coisa tipo Nossa! Que vida você leva!… e escondam a tristeza, tédio, jamais! Quando vcs entrarem num surto de desânimo e estiverem de saco cheio com toda falsidade e hipocrisia, escancarem beiços e mostrem dentes em risos plastificados. Isso recriará a felicidade. Há, nas redes sociais, uma regra de causa e efeito que faz com que os navegantes sempre exclamem: lindos! (A saber: lindos! é a palavra mais digitada do Facebook).

Isso acontece porque todos terminam acreditando nisso. Internalizam a sensação de que tudo (apesar de tudo) está bem e que, se feliz é quem curte, curtidos são mais que felizes. Ensaiar o sorriso, contudo, é questão de técnica. Treinar no espelho, antes das fotos, é uma boa dica. Agora existe o Batom Fixador, que, além de fixar a posição de riso e enverniza os beiços. Façam biquinhos sensuais e não se esqueçam da dica de socialites: arregalar os olhos!

Tenham dó de cachorro. Ah, cachorro é importante! O cachorro deve ser chamado de filhinho. Beijo de língua no cachorro causa muito boa impressão. É fundamental que postem filmes, textos, fotos e comentários que lhes mostrem com dó de cachorro. Gatos também pode, mas nem pensem em galinhas! Elas não combinam com Facebook.

E protestem veementes! Isso lhes diria Brigitte Bardot; é um absurdo o que fazem com animaizinhos… esquecemos que passam fome, dormem nas ruas. Claro, ela tem razão, é preciso ignorar que a cada doze segundos morre uma pessoa de fome no mundo. Isso é bobagem! Muito melhor cuidar de cachorros, gatos, baleias e golfinhos. Afinal, o que importa no Facebook é a empatia para com seus semelhantes… que boa pegada! Oh, como é lindo o mundo branco e asseado! Vcs estarão todos lindos, construindo um mundo melhor…

Então? Com alguma perseverança em fabricar essas virtudes, vocês se tornarão felizes por aclamação. Claro, a essa altura, já não importa o que é real ou não, desde que se convençam disso. Vcs nem brigarão mais, porque desconhecerão o sarcasmo, continuarão mentindo um ao outro com expressão de pureza e naturalidade. Mesmo que na verdade queiram se enforcar mutuamente, estarão de tal modo imunizados contra a autoestima, que não sentirão falta de sinceridade dos sentimentos. Afinal, quando vcs estarão convencidos de que são felizes… então, o leque de amigos aumenta e, como uma roda viva do Facebook, vcs estarão no topo da felicidade, até que vermes nada virtuais lhes consumam os corpos.

falsírioSacarina_blogodorio.com
A NOVELA, A TAMPA E A PANELA
Corneto Falsírio e Naja Sacarina
O TROCA-TROCA

— Sacarina! Minha doce conquista…
— É que sacarose saca tudo cor de rosa…
— Fica tudo bonzinho e molhadinho…
— Você merece, não tem olhos para o mal…
— Ah, gente de bem, estou quase lá…
— Vê por entre a ponta que lhe sobressai…
— Oh, isto é sensível! Vc me dá e eu lhe dou…
— Vc é compreensivo, tolerante, generoso…
— Ah, doce mel! Pelas paralelas de Belchior!…
— Eu lhe coroei, meu rei..
— Sacarina! Que é isso na sua mão?
— É um pato sangrado a ser comido…
— Sim, o troféu do troca-troca!…
— Que ponta é essa, na sua cabeça?
— É o resto de tudo, um osso roído.
E viveram assim, felizes…

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