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O ANTROPOMAPA

OS MESMOS, ONTEM, HOJE E AMANHÃ

😀 burro velho não puxa carga…

Gente jovem é uma cachoeira de inquietação. Tudo aconteça e a pressão venda fluoxetina na farmácia. Claro que ninguém é tão bobo de se entupir de remédio, mas, a cada dia isso vai se tornando um hábito mais comum. É curioso pensar na força desses hormônios criando caos. Depois que passa um tempo, tudo muda tanto, quando a pressão diminui. O fato é todos somos estupidamente iguais. Começa, dura e termina, com os mesmos e milenares sintomas. a questão se alivia em compreender o processo pra diminuir o desconforto.

Velho não presta pra muita coisa, mas ouvir esses paranoicos, pelo menos enquanto não caducam, pode tornar a vida mais fácil… viver é uma questão de tempo, mas se envelhecer muito burro, se não ajuntar o tesouro de saberes, o estojo de aforismos… costuma ficar muito difícil.

Quando bem resolvidos, velhos falam com a morte. Susto com isso é coisa de gente nova. Quando não envelhecem bem, não há caixão que os acomode, ficam se retorcendo… beira tragédia. Já pensei nisso, vendo velhinhos de mais de noventa se agarrarem à rotina de dezenas de comprimidos e injeções. Tudo pra fingirem que vivem. Laboratórios e hospitais agradecem a falsa piedade dos parentes aos idosos internados, desde que paguem caro por isso.

Bem, mas eu quero dividir uma bobagem curiosa. Uma vista no modo como a gente passa por esse processo de fechamento da história humana. Gradualmente se envelhece e, pra não virar símbolo teimoso de obsoletismo ou abrigar-se na marquise da honra piedosa ou se tornar um idiota inofensivo, é muito saudável conectar-se com as crianças. Uma análise nos conduzirá ao começo do processo. Ninguém se engane, sempre seremos os meninos que fomos…

A primeira vez que me vi como velho é uma lembrança bem viva. Eu era um cinquentão e, cercado de adolescentes, criava logotipos e embalagem pra vender barro perfumado nas escolas. Eu criava desenhos que os jovens processavam  no computador. Tão envolvido no trabalho, discutia com eles de igual pra igual, falando uma linguagem mais próxima possível, nem pensava em diferença de idade.

Um dia, cheguei sem que me vissem e escutei um deles dizer:

—  😉 essa arte é do veím do barroló…

Não é que não quisesse envelhecer, mas nunca havia pensado em mim desse modo. Eu era velho… Pra eles, eu era mesmo um velho. Depois disso, comecei a pensar que é preciso aprender a envelhecer. Melhor ainda, é preciso aprender a morrer… e se alguém me trata com honra piedosa, isso me torna satírico e irreverente. Pode beirar o ridículo, mas não há o que levar a sério nesse mundo visível, é preciso se divertir, pra não se tornar uma tragédia. Coisa de velhos, vexames podem acontecer, faz parte desse jogo. 

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Então, eu fiz um gráfico, um organograma, o tal Antropomapa. É sabida a semelhança de gente com bicho, uma senhora amiga me lembra uma galinha, não consigo evitar — refiro-me às feições — que isso me venha à mente quando a vejo. Outro cidadão me lembra nitidamente um cavalo. Assim, há ratos, coelhos, formigas, vacas, lesmas, baratas, pulgas, etc.

E gente pode parecer planta ou objeto. Há carros, tratores, colheres e frutas… fulano é uma banana, sicrano parece um trator, beltrano é um cachorro. A diferença entre nós e essas coisas é só o discurso de opinião. E essa capacidade de falar cria uma constante nessa análise, humanos têm asas, embora, reprimam o sonho de voar. A presença das asas é uma constante, mas a relação com elas se alterna ao londo do tempo.

A relação com as asas faz toda a diferença. As fases são ativas, negadas, recolhidas, desativadas ou reativadas. Tudo acontece à revelia da consciência. Pode-se falar, articular, criar, matar e dominar o semelhante. É muito poder, não voar é uma frustração comum em nossa natureza…

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Bem, bebês nascem com asas. Até 7 anos, são leões alados. Reinam, absolutos donos do prazer, da soberania e do poder. Claro que podem voar! As asas dessa criatura são abertas, confessadas, ativas.

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Mas o processo de recolhimento inicia e vai até os 14. Espertinhos, amedrontados e desconfiados. Há timidez, astúcia e aventura. Vangloriam-se de negar as asas da infância, desejam a força da juventude. Qualquer sinal de infantilidade lhes constrange, assim, não conseguem evitar que suas asas terminem recolhidas. Eles se parecem com coelhos.

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Entre 14 e 25, asas estão esquecidas, aprendem a não pensar nisso. Teimosos, impulsivos, obstinados, predomina a força, portanto, destaca-se muito serviço. Predomina a ideia de consumo e produção. É um período cheio de inquietação, em que se quer fazer muita coisa e há muita disposição pra isso. Destacam-se força, ignorância e serviço. Parecem-se com o jumento.

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Dos 25 aos 50 anos, são amansados. Esforçam-se em parecer inteligentes. O preço que pagam é a conivência com as imposições do coletivo social. Talvez seja esta a fase mais civilizada, no sentido de que se aceitam as regras gerais… Asas ficam desativadas, não se admite pensar em frustração por não voar. Não se percebe que isso é uma resignação com a castração das asas humanas. Pensam que são realistas e eficazes. Há talento, elegância e trabalho, parecem cavalos.

 

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De 50, a 60,  há certa calma e resistência em defender o pensamento e identificar suas causas. Tendência de conservar energia para o limiar da velhice que se aproxima, quase antecipada. Começam a despertar a ideia de asas, embora, ainda não assumam. Destacam-se a economia, a paciência e o discurso. Eles parecem camelos.

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Dos 60 aos 80, cria-se um casco duro, esconderijo e pouca pressa. É um exercício de assumir a velhice como um fato. Isto envolve a retomada das asas na melancolia da lembrança, no saudosismo que os ligará à infância. Frequentemente, há surtos de irreverência e sarcasmo pela decepção com tanto esforço despendido. Tantos valores agora duvidosos. Há desligamento de obrigações civis, destacam-se em memória, resignação e esperança. São tartarugas.

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Depois disso, provavelmente dos 70 em diante, nada mais importa. Velhinhos são sarcásticos, irreverentes. Podem parecer irresponsáveis pra quem está defendendo regras, porque estão acima de tudo o que acontece, como as crianças. As asas voltam a estar completamente abertas. O mundo se perde, na visão dos velhos, porque voam como crianças. Sabem que todos estão cometendo os mesmos erros que eles, sem que nada se acrescente. Parecem-se com as águias.

Veja animais que se parecem muito com famosos

 

 

 

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