A CASA DA PAIXÃO

Pra falar de paixão, quase todas as línguas lambem as palavras, mas nem todas se aumentam da doçura que há nelas. Porque as palavras são caixas, que acomodam mistérios imprescindíveis ao bom viver e ao bom morrer. Estas chaves, a quem se dão? E quem se apropria disso? É preciso abri-las, pra olhar dentro, com olhos calmos e profundos, porque muitos há que chame acusem o mistério de ser confuso…

POESIA QUADRADA 231215/5

A CASA DA PAIXÃO


A jovem Tracy queria dizer, e não sabia: palavras não vêm facilmente, ela dizia.

De fato, elas não vêm por tão só chamadas, vêm porque se enamoram das vontades intensas. E passarinhos cantariam porque voam, ou voam porque cantam? Sim, gentes não falam porque pensam, pensam porque falam…

Feliz é quem tem palavras, e justa é a alegria de quem voa. É quem se revela pelo que diz. As palavras levam e trazem, nestas caixas lacradas, as partes da alma, do íntimo, e muitos, por quem passam, e se presenteiam, não logram se apropriar delas.

Sem perceberem, deixam que lhes escapem. Não sabem, não apreendem, que com elas se faz a casa da paixão… e nem que paixão não é um sentimento, e que esta casa tem frente para duas ruas…

Ao fundo, está a rua da tristeza, quem bolina o corpo da frente, rua da alegria, em noites solitárias e frias, até que chegue a manhã, e o sol lhe aqueça a face… e que a brisa lhe beije os garfos e as bordas dos copos no balcão da copa. Que a ela ilumine a brancura dos dentes, abraçando-lhe, o corpo transparente da luz.

Moram na paixão, não é homem nem mulher, qualquer que se meta ao chão, ao fígado, ao rim e ao coração. Que se desmantele em generosidade. Mas, aos que não sabem morar, também não sabem falar a casa da paixão. E grades lhe brotam nas janelas. E na gaiola que aí se forma, um pássaro negro tem sua língua cortada, e seu canto gemido sai afinado pelo medo.

Incônscios, que por ali transitam, atribuem-lhe ao canto, devaneios, e veem beleza onde não existe. Medíocres! Encantam-se porque não conhecem o brilho sutil da tristeza, desconhecem-na, por não a saberem ter, a esta, a tristeza que é a tela onde se pinta a alegria. Portanto, medíocres não se apaixonam…

A casa da paixão é uma árvore quadrada, que tem dois troncos. Cada tronco tem dois galhos, cada galho tem seu fruto. Porque gentes, que são árvores, seus frutos também o são… gentes nascem de árvores, e toda árvore que não se apaixona, seus destino é o corte.

Mas quem abre essas caixas, e lhes encontram a poesia, de si mesmos exigem formas precisas a que se entreguem, o corpo transparente da luz, que protege o que se oculta. Quem faz assim, escolhe com quem conversa, e vela, porque revelar-se custa caro. A essa altura se tenham mutuamente as almas que anda na sinceridade da pele incendiada… E ardam.

Ardo eu, pelo que digo, ainda mais, pelo que não digo, como vento tempestuoso, que bate os barcos uns contra os outros. Mas, vão e venham, levem e tragam, em forma de história, e me liberte a cada vez, corpo feito de histórias.

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