PROVÉRBIOS DE ALABÃO

Alabão é louco: fala provérbios…

Na cidade onde mora todos o aceitam como tal. E, como a ele convém, aceita-se também, e ninguém se incomoda. Mas, certa experiência trouxe o homem ao pensamento de muitos: resolveu propor uma conversa aos seus concidadãos. A intenção era promover uma discussão sobre comportamento em geral, o que, vindo dele, era um disparate. Não que Alabão se arrogasse de capacidade especial, mas um ocorrido lhe incomodou sobremaneira… abordar esse assunto em grupo, obviamente, já seria bizarro, mas pra fazer disso uma autêntica coisa de louco, ele optou por um evento em praça pública. E muitos, marcadamente, pela curiosidade, ajuntaram-se para ouvi-lo. E o provocavam com perguntas.

REFLEXÕES DE LOUCO
PROVÉRBIOS PARA LOUCURA CONSCIENTE


Alabão me disse isso. Durante anos, esteve despercebido, era apenas mais um louco da cidade. Então, numa de suas andanças, viu um noiado na rua desrespeitando uma jovem que, tímida e apavorada, submeteu-se a isso pelo medo. A moça estava muito envergonhada, e a cena era assistida por alguns homens que bebiam cerveja e discutiam futebol no bar em frente. Os tais, em vez de a auxiliarem, acharam a coisa engraçada, e se divertiam com a cena, sem nada fazerem a respeito.

Mas Alabão, como é próprio dos loucos, envolveu-se emocionalmente com a coisa, pelo que foi tomado de uma cólica de justiça, como se uma pedra lhe saísse dos rins. E, louco de dor, arremeteu-se contra o miserável agressor, que pegou em pedras e reagiu com muita violência contra ele. Ao ver-se envolvido naquilo, e que sua performance enriquecia o espetáculo, teve dúvidas sobre os efeitos de suas causas, e odiou o caráter omisso, mais do que a atitude do viciado. E decidiu-se por fugir da briga.

A LOUCURA EM PROVÉRBIOS
DO SIGNIFICADO DE MORAR


Desde esse dia, perdeu o sono por várias noites, pensando insistentemente sobre o caso. E pensou que os animais, frente aos humanos, são mais justos em relação ao modo como moram. E foi aí que começou a anotar suas ideias num caderno, como tópicos das tais palestras as quais  alguém, ironicamente, intitulou: Provérbios de Alabão.

O homem, sempre em companhia de seu fiel companheiro, Razu, bem situado em sua condição de louco, despertava a curiosidade de todos, pelo que, reuniam-se muitos ouvintes, mais pelo exotismo da figura do que por interesse em suas ideias. Mas, ao falar por meio de figuras, em parábolas, Alabão fazia jus a esta condição emprestada de provérbios em seu discurso, .

A mim, contudo, pareceu tranquilo e coerente. E que construía suas ideias num tom de quem busca a si mesmo, no sentido de compreender melhor o seu próprio dizer. E que usava o exotismo como máscara, para contornar a timidez. E que, embora, os ocasionais aplausos lhe soassem irônicos, seguia falando aos outros como se falasse a si mesmo, como se quisesse a complexidade do significado de um lar para um louco.


Transcrevo aqui, com empenhada fidelidade aos originais, 7 grupos dos tais Provérbios de Alabão:


Provérbios de Alabão 7/1

Mulheres e homens são fatos sociais, mas homens são mulheres, e vice-versa, na esfera dos fatos espirituais. Minha mãe dizia que o mais valente é o que foge da briga na rua. Sábio homem esta mulher…

Porque fuga é um caminho sinuoso, passível de análise; e a luta deve ser admitida por seus motivos. Coragem é irmã do medo, e sobressai-se nas entrelinhas desta família, assim como a dúvida é irmã da fé.

A fuga da luta não é pra qualquer, quando vai na direção da humildade, mas é peculiar aos fracos, quando veem a cor do sangue.

Estes são os que não conhecem o significado da expressão boa morte; e que, por isso, perseguem, como cachorro atrás do próprio rabo, uma boa vida.


Provérbios de Alabão 7/2

A fuga pode ser o mal de quem corre apavorado na direção da vida fácil. Por isso não hesita em deixar os companheiros.

Este é que está sempre na boa hora, mas foge da briga, sem conseguir avaliar as consequências dessa ação. Cola a mediocridade em seu corpo, adesivo da ignorância, assim como os fumantes patéticos simulam a nicotina.

Este é o que não sabe por onde anda, e não saberá também discernir sua fuga. Parece cruel dizer isso de quem já tá fodido, mas não dizê-lo seria outra fuga.

Fidelidade é imprescindível, e este é um fato espiritual contra fatos sociais. Quem não a pratica não consegue se desvencilhar da pecha de ruim de papo… A tal ponto que esta ruindade o gira em torno de si mesmo, e ninguém suporta tê-lo como amigo. Este é um conceito necessário aos jovens, e que vem dos velhos.


Provérbios de Alabão 7/3

Mulheres andam por caminhos de conhecimento, e meu coração doía quando não entendia isso. Quem demora a responder vai mentir. Este é o instante em que o cara prende a atenção da roda, e coça a barba (especialmente quando olha pra cima quando faz isso).

Tem treta! O papo enrola, e ele procura usar figuras sem conseguir costurar as ideias. A conversa começa a perder o poder de construção, e como presente, o passado lhe traz as lembranças mórbidas.

Este é um fato social, e é corriqueiro e frequente no ambiente doméstico, pra citar um lugar inapropriado pra isso. Parentes são acasos programados e construídos num processo de enganos, no qual a mentira, a hipocrisia, a traição e a arrogância ostentam a estética dos mortos que não caíram. Eles andam por aí…


Provérbios de Alabão 7/4

Músicas são mulheres. E acontece com esses dois ícones das sensações que entre elas existe uma emanação de energia peculiar.

Mulheres são bibliotecas. E deu a história que a mulher trouxe o fruto do conhecimento pra Adão. O conhecimento e o saber, contudo, são palavras fortemente diferentes.

Mulheres são músicas. E o saber é um leão que avança e não pensa em voltar. Conhecimento é um animal pequeno, roliço e venenoso. Eles se arrasta pela poeira da terra e tem medo dos alagadiços.

Músicas e mulheres não são machos nem fêmeas; são pra ouvir, entender e saber, mas como o medo da ignorância é a alma do conhecimento, isto o especializou em ser astuto, fingir-se de alimento e a matar.

Provérbios de Alabão 7/5

Mulher, no feminino, é perseguida por sua beleza. Mulher, no masculino, é valorizada pelo que entende.

Havia pedras preciosas e ouro no rio Pishon, no jardim do Éden. Lá já se notava os pivôs da ganância dos humanos, meio ao fluxo transparente de suas correntezas.

O valor das pedras escondia uma relação vitimária recíproca entre o homem e seu desejo, e é por isso que mulheres são incomodadas com assédio. É por isso também que a desgraça dos outros não incomoda.

A riqueza é filha do poder, mas a ganância é irmã da mediocridade, e a felicidade é a mãe dos pobres. Só loucos entendem isso, e só pirados a isto assumem. Felicidade é um rio brincando entre pedras a caminho do mar.


Provérbios de Alabão 7/6

Essa lógica só existe pra quem, depois de conhecer, se faz saber. Abri os olhos de manhã e a claridade era reveladora e sem susto. Meio a tantos eventos mal resolvidos da infância e juventude, senti-me arrogante, eu mesmo no banco de réus. Neguei-me a fazer piada sobre isso e ficar rindo que nem uma besta omissa.

Manhãs costumam revelar essas coisas, especialmente pra quem chora no escuro de suas noites. Manhãs dizem que viver é como não terminar a música, ou a mulher. É preciso continuar aperfeiçoando o ritmo, a bossa, os tempos e os significados.

As músicas, as mulheres, as bibliotecas, o saber e a felicidade sempre serão incompletos. Ai daquele que se esquecer disso, porque acordará assustado e abraçado aos beijos da morte medíocre.


Provérbios de Alabão 7/7

A água é a figura do verbo, e os fugitivos não conhecem a eficácia de um mergulho na água fria, quando a adrenalina do sangue subindo à cabeça poderia lhes despertar para suas responsabilidades civis.

Isto acontece porque os rios e seus braços, os igarapés, não falam a língua dos homens. Eles fazem correr suas mensagens a partir dos mundos interiores e subterrâneos. Quando chegam à superfície, o diálogo é avançado pra quem se limita à superfície.

Só tem mesmo boa vida quem vive construindo uma boa morte. Humildade é deixar-se entrar nos abissais do pensamento, de onde o retorno é uma questão de vida ou morte. Não se morre ao parar de respirar, e parar de pensar é o pior jeito de morrer.


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