SORTE DE NEGRO

PELEÔ, PELEÔ, IAIÁ,
EU SAI NO VOAPÉ

Era sorte. O negro apertava os olhos pra que nada lhe escapasse no quieto do mato, encafuado e arisco no quilombo. Era susto. Correria, boca seca, saudade e medo. Nunca mais volte, quem sabe? Era sorte. Sossego desconfiado, cai exausto na rede, e fica ‎assim, não sabe até quando. Quanto tempo? Pulou, ouvindo. Baco-baco, é ‎capitão-do-mato. Meio corpo na porta do biongo, esmiuçou e viu. Era hora. Correr não sei pra onde. Avisa negrinho, e some na capoeira.

Era morte. Buraco de bicho. Enfiou-se ali, e quietou-se, trêmulo. Qualquer bafo do cavalo, é o cabra… E que será de negrinho? Viu. Voando baixo, passou o vulto. Deu pro lado da beira d’água. Ele, sair dali, era morte certa, mas ouviu o trote. É mais do que medo, essa hesitação, esse vai não vai. Pensa que, se é matar ou morrer, matar é viver. E esgueirava-se por ali, quando viu o negrinho cair, embaixo do laço. Pé pra lá e pra cá, era sorte, saiu no cangapé. Ele quetou, que não tava aguentando nada. Solentrano, vai escurecer. De noite não vem, tem onça.

Era tarde. Escureceu. Capitão ‎voltou contrariado, pra ele, é azar, sem negro e sem negrinho. Era festa, nhanhá espera, que tudo viu, que não se sabe amanhã, hoje tem cacumbu. Ora, vê negro, ‎não vê negrinho: vem lá, negrinho, dançá caxumbu. Tá engolido, no meio da capoeira, com medo. E o silêncio, só nhanhá: vai buscar, nhônhô. Vai buscar moleque, que vai escurecer. Vem lá, negrinho, que irerê assobiou…

 

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