TERCEIRA IDADE DE UM MENINO

Despertou e o era menino, viu da janela o mundo lá fora: formas de morros e tons de azul celeste. Ficara por ali na cama quente e aconchegante, o cheiro era de mãe e família, espreguiçou-se um pouco mais e adormeceu o sono dos reis; leve e profundo, curtindo sua completude inconsciente como um feto no ventre materno ─ seguro e passivo. Sonhou um pouco a menina bonita que há dias flertava. Acordou e sentiu-se disposto a levantar. O que fazer? O dia o esperava, somente e todo para ele, o céu próximo de sua cabeça lhe ditava novas canções soltas e, espontaneamente, vivia.

Assim que escureceu entregou-se ao sono, despretensiosamente.

O relógio tocou, despertou, e era um homem. A janela nada lhe dizia. Apressadamente se vestiu e um cheiro artificial o sufocava. Lembrou-se que já havia pedido à Rita que trocasse o desinfetante. Pegou o jornal e dali puxou na cabeça uma lista de afazeres básica até o fim da semana – assistir àquela peça, ouvir o som alternativo do cordel, terminar de ler Chomsky… Discuti-lo com o pessoal. Gabou-se interiormente de ser assim compreendedor do seu universo. Falaria hoje à imprensa sobre seu novo artigo “O medo na primeira infância”. Ficou no escritório até o fim do dia reescrevendo sua tese e reorganizando as ideias. Comeu frutas orgânicas, como todos os dias e não ingeriu líquido durante o almoço. Preocupou-se com a mãe – tão pouco sabe da vida. Às onze e meia se deitou, pensou em refazer seus planos, talvez improvisar no dia de amanhã? Quem sabe cozinhar e dar uma folga a si mesmo, ir a algum parque e apreciar o verde. Depois pensou problemas da humanidade que lhe renderiam pesquisas. E a ex-mulher? Sempre em crise, coitada. Embotado de pensamentos, adormeceu.

Despertou e era o velho. A cama enorme cheirava a lençóis novos, a janela estava longe, um grande vão entre os móveis daquele enorme quarto impediam-no de ver com clareza através da janela, a vista embaçada sofria a tentativa; estava tarde? Não sabia. Levantou-se devagar apoiando no criado mudo. Afastado da ideia de encontrar o tempo no relógio, caminhou arrastado até a janela um longo caminho. Chegou enfim, ante o parapeito, abriu-a sofregamente. Começava o dia, mirou e viu o sol contornando delicadamente o desenho do dia que estava para nascer. Quem fez o dia nascer? Perguntou para si em voz alta com a mesma simplicidade que uma criancinha perguntaria a mãe. Um sobressalto e estava absorto em pensamentos antigos. Lembrara-se da infância e dos pais… Dos cheiros e formas dos céus que lhe cercavam. Pasmara-lhe uma ideia. Já estava tudo assim, degringolado? O tempo não era mais seu amigo. Lembrou seus artigos, procurou-o ali e nada encontrou; enojou-se deles. Análises seguras do mundo e do outro. Em que rua deixara o menino? Viu o mato invadir as suas ruínas. De pronto, ainda não estava pronto. Adormeceu e nunca mais despertou.


Ana Rocha Aguiar, 29 anos, é moradora da Vila Barroló. É casada com Adão Braga e tem três filhos.