TIRADENTES A MOREIRA DO CERRADO

Acho que foi Nenê, o velho garimpeiro. Ele fez rancho na Vila, antes dela existir. Quando ele andou pela vila, foi logo vendo a árvore Tiradentes. E disse que quando a gente tem dor, que não dá pra aguentar, arranca a casca, pega o leite e passa no dente, pra ele arrancar.

TIRADENTES TIRANDO DOR

NENÊ TIRANDO XIBIO

ELA TIRANDO DELE

ELE TIRANDO DO RIO.

tiradentes
A Moreira ficou triste

TIRADENTES, A ÁRVORE QUE TIRA DOR


A gente gostava do sotaque, o jeito engraçado de falar. As histórias doidas que contava, e isso que repetia sem parar: engenheiro não tira farinha comigo, não. Era pedreiro, o velho, mas morreu porque foi pra cidade, morrer de tanto beber pinga.

O rancho de Nenê era bonito, coberto de folha de buriti e com viga de pororoca. Os tocos que fincou no chão eram de aroeira, madeira dura de acabar. Sala, cozinha e quarto tudo junto, e a cama de cipó; era uma casa muito bonita, melhor que casa de rico, que é cheia de bugiganga. Eu ia pra lá e ficava puxando a língua do velho, escutando as histórias e rindo por dentro do jeito dele falar.


NINGUÉM PROCURA DOR,

MAS DIZ QUE GARIMPEIRO

É COISA DE JOGADOR.

DE QUEM PROCURA O QUE NÃO GUARDOU.


Ele tinha jogo de peneira e bateia de garimpar. Gostava de ficar na beira do rio, peneirando cascalho na água, até quando sol esfriava. Aí, de noite, contava história do xibio que pegou em algum lugar, que a terra tem formação nas pretinhas, que um dia vai encontrar! Mas mulher não gosta disso: é coisa de jogador. Diz que é coisa de quem procura o que não guardou. Aí eu acho que a árvore Tiradentes tirava a dor de Nenê.

Mas árvore não garimpa, nem bebe pra se matar. Só bebe água filtrada e come o sol sem pressa. Olho pra ela quando passo e lembro dente e de Nenê. No destino de tanta gente que essa árvore sabe sem falar. Quanta dor ela arrancou? Quantos dentes ela viu chorar? Que árvore forte é essa que ajudou Nenê a garimpar? Sofre seca e cupim, mas não muda de lugar.

O nome dela é Moreira. Tiradentes é apelido, de tanto se imaginar gente arrancando dor com o leite da casca dela. E o nome dele era Nenê Moreira. Amoreira e Omoreira, o casal da dor: Ela, na terra, arrancando dentes. Ele, no rio, arrancando xibio. E a Moreira ficou triste, porque Nenê morreu.

De fato, ela ficou triste, cipó enrolou no tronco, vive meio desarvorada. A vila existe com ela, mas ninguém hoje em dia quer arrancar dente com casca de árvore. Do mesmo jeito, a história do velho Nenê, o garimpeiro que desceu o rio pro mar, se perdeu no Garimpo, o povoado. Não se ouve mais Nenê, e o rancho desapareceu. O rio continua correndo, mas ninguém mais foi lá garimpar.


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